Campinas, 13 de Agosto de 2020
MEU ARTIGO - ANA FONSECA
19/07/2020
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MEU ARTIGO
ALIMENTAO, SOCIEDADE E AMBIENTE
Ana Silvia Fonseca -

A maior mudana que temos de fazer ir do consumo para a produo, mesmo que em pequena escala, em nossos jardins. Da a futilidade de revolucionrios sem jardins, que dependem do prprio sistema que atacam, que produzem palavras e balas, mas no comida e abrigo. — Bill Mollison

Aalimentao um dos fatores mais determinantes da sociedade humana contempornea, pois se alimentar, hoje, um ato poltico de grande envergadura, que envolve escolher quem vai viver e quem vai morrer, e como. O que comemos est por trs da maioria das doenas que mais tm nos levado morte, conforme recentes estudos junto aos sistemas de sade do Brasil e dos EUA. Uma dieta rica em protena de origem animal, acares e alimentos ultraprocessados predispe a doenas do sistema circulatrio e cardiovascular,

cnceres e diabetes. O modo como o alimento produzido tambm diz muito sobre como vivemos e morremos: no precisamos ser grandes especialistas para saber que, quanto mais agrotxicos, antibiticos, excesso de transporte e de embalagens, e processamento industrial com aditivos qumicos, mais doenas teremos, mais letais, e mais cedo. Comer carne animal, por exemplo, alm de favorecer doenas como as cardiovasculares, as endcrinas, os tumores malignos e as do aparelho digestivo, a causa da proliferao de vrus como os do tipo Corona, responsvel pela atual pandemia de COVID-19 e de duas SARS anteriores, e tambm de vrus como H1N1, ou gripe suna, Ebola e o da gripe aviria. Esse consumo no apenas uma adversidade para a sade pblica, mas tambm um dos maiores problemas ambientais da atualidade, junto utilizao de combustveis fsseis. O impacto da produo de protena animal sentido em toda a cadeia da vida na Terra, interferindo na biodiversidade e consequentemente nos servios ecossistmicos. Mudar esse hbito traria consequncias positivas em todas as esferas, sobretudo se associado a tcnicas agroecolgicas de produo de alimentos: preservao, ou baixa interveno humana, de ambientes naturais e de sua biodiversidade; diminuio dos gases de efeito estufa e consequentemente das mudanas climticas; diminuio de agroqumicos e medicamentos txicos utilizados na criao de animais, inclusive de antibiticos que nos tm tornado insensveis aos antibiticos de uso humano; diminuio da crueldade animal, ambiental e social, observada no confinamento de animais e pssimas condies a quem trabalha em fazendas

e frigorferos; diminuio da interferncia hormonal no corpo humano em funo do abate de animais cada vez mais jovens e, portanto, ainda repletos de hormnios de crescimento; e, consequentemente, aumento da sade humana e da qualidade de vida da maioria das espcies do planeta. Alimentar um contingente de quase 8 bilhes de seres humanos tem se mostrado como uma questo central em nvel mundial. A verdade que, alm da desigualdade econmica aparecer tambm na produo, distribuio e consumo de alimentos, com diviso extremamente desigual de protenas, os impactos ambientais advindos da agricultura, da pecuria e da pesca predatrias tm colocado em risco diversas formas de vida na Terra, inclusive a humana. Essa conta no fecha: comemos carne e alimentos produzidos com excesso de agroqumicos para sobreviver, mas esse consumo nos coloca em risco de morte. E ainda causa extino em massa de diversas outras espcies por variados motivos, inclusive pelo declnio dos recursos hdricos. A produo de alimentos corresponde a cerca de 30% das emisses de gases de efeito estufa no mundo, a maioria dela vem da pecuria. Rachel Nuwer, em matria para a BBC, afirmou que “nos EUA, por exemplo, uma famlia de quatro pessoas emite mais gases de efeito estufa por comer carne do que por dirigir dois carros. Mas, em geral, so os veculos motorizados - e no os bifes - que aparecem como viles nas discusses sobre o aquecimento global”. Por que ento come-se ainda tanta carne? Por que tantos agrotxicos? E por que tanto processamento industrial? A resposta pode estar no fato de a alimentao ser multidimensional.

As pesquisadoras em nutrio humana Ins Castro, Luciana Castro e Slvia Gugelmim sistematizaram a multidimensionalidade da alimentao em: 1) Dimenso do Direito Humano - trata da alimentao adequada como direito previsto pela Organizao das Naes Unidas, sendo que assumir esse direito promover a sua exigibilidade e explicitar a obrigao do poder pblico em garantir seu cumprimento; 2) Dimenso Biolgica - abarca aspectos fisiolgicos da alimentao, elementos nutricionais e sanitrios necessrios ao pleno desenvolvimento e funcionamento do corpo humano, uma dimenso imprescindvel mas que no d conta de toda a complexidade da questo alimentar na contemporaneidade, pois coloca em segundo plano o contexto de vida de cada ser humano, sua subjetividade, sua histria e sua insero numa coletividade; 3) Dimenso Psicossocial e Cultural - rene aspectos simblicos da relao de indivduos e sociedades com os alimentos e o ato de se alimentar, incluindo rituais dirios ou especficos e sistemas de valores tanto sociais quanto subjetivos, englobando, portanto, no contexto contemporneo, a relao das pessoas com o tempo, o trabalho, o corpo, o significado de sade, a comunicao de massa e o ato de consumir; 4) Dimenso Ambiental - trata dos impactos ambientais dos modos de produo, transporte, comercializao e consumo dos alimentos hoje hegemnicos, e abrange tambm as relaes da sociedade com o planeta que sejam sustentveis, preservem e promovam a dignidade humana e a vida em toda a sua expresso; 5) Dimenso Econmica - de dupla vertente, enfoca tanto o sistema alimentar no contexto de

uma economia de mercado, com vencedores e perdedores e instabilidades peridicas, quanto as relaes de trabalho, seja no mbito da produo, armazenamento, transporte e comrcio de alimentos, seja as que ocorrem no mbito da produo de refeies coletivas, inclusive em programas do poder pblico, como o de alimentao escolar. O trabalho das autoras tambm apresenta sugestes de aes de incentivo, proteo e monitoramento para promoo da sade atravs da nutrio, mas reconhecer os cinco pontos do aspecto multidimensional da alimentao j responde aos nossos questionamentos: em larga medida nos alimentamos mal porque nem sempre temos o pleno poder de escolha ou controle sobre a produo e distribuio de alimentos, sobre os interesses por trs dessa produo, sobre quem ganha dinheiro com isso, e sobretudo porque ignoramos quase que em sua totalidade o que ocorre nos bastidores da produo de alimentos, que vo dos aspectos jurdico-legislativos do que permitido, fabricao de agrotxicos; do desmatamento para fins de agricultura ou pecuria extensivas, contaminao do solo, da gua e do ar; da perda de biodiversidade, ao ultraprocessamento industrial; e dos custos humanos e ambientais do armazenamento, transporte e distribuio, toxicidade das embalagens, desde sua produo at a utilizao e o descarte.

Para assumirmos a alimentao como ato poltico de grande envergadura, necessrio agir em trs direes: • Conhecimento - conhecer os sistemas produtivos agropecurios (por exemplo, a diferena entre agronegcio e agroecologia) e industriais (processamentos), seus mtodos, tcnicas e consequncias sade e ao meio ambiente, e conhecer minimamente o metabolismo humano e a fisiologia dos nutrientes; • Responsabilizao - tomar as rdeas da prpria alimentao em todo seu espectro, da produo ao consumo, incentivando a produo de alimentos de baixo impacto social e ambiental, escolhendo de quem comprar e onde comprar, sempre o mais local possvel e preparando, sempre que vivel, os alimentos em casa; e • Organizao - formar grupos, ou engajar-se a grupos j existentes, de consumo consciente e/ou em defesa do meio ambiente nas mais diferentes frentes, atuando tambm em termos de comunicao e educao dentro e fora das famlias e das escolas. Essas direes tambm podem nos ajudar na conscientizao sobre a desigualdade social e alimentar em que vivemos e sobre a padronizao, que se d atravs da comunicao de massa, de comportamentos de consumo, seja pela divulgao de pesquisas que servem aos interesses de grandes conglomerados produtivos, seja pela publicidade ou pelos valores simblicos que nos chegam via indstria cultural.

*A Doutora em Lingustica Aplicada. docente do ciclo comum de estudos. Participou como professora do curso “Educao para a Ecologia e Sociedade na Amrica Latina” organizado pela SESUNILA e SINPREFI em 2019.

O ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUNO CADERNO SESUNILA N.3

https://issuu.com/sesunila/docs/caderno_sesunila_n3_junho2020/s/10759827

Piratas do Tiet, Sem data Laerte

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