Campinas, 17 de Outubro de 2017
GELADEIRA COMUNITÁRIA NO TAQUARAL
11/10/2017
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SOLIDARIEDADE

Tem geladeira comunitária no Taquaral

 

A alegria de encontrar um pudim de chocolate caseiro embalado em porções individuais e bem geladinho fez Wanildo Lima (FOTO ACIMA) abrir um largo sorriso. Sob o forte calor da tarde, ele comentou que há muito tempo não comia um doce. Morador de rua, Wanildo se beneficia dos alimentos deixados por moradores do entorno na geladeira comunitária instalada no Parque Taquaral. “Muito boa essa ideia, não pesa pra ninguém e alivia pra muita gente como eu!”, diz. Comerciantes, restaurantes e moradores tem sido convidados a participar com doações.

É a primeira geladeira comunitária que se tem notícia em Campinas. Ela foi montada por iniciativa de moradores e comerciantes que observaram o grande fluxo de pessoas com dificuldades financeiras na região. Zita Simone, uma das idealizadoras da ideia comenta que a presença de um centro de tratamento a drogrados e alcoólatras no bairro contribui para ampliar o trânsito de pessoas com dificuldade de organizar a vida. “A ideia da iniciativa é esta: ajudar a quem precisa”.

O refrigerador foi doado por três amigas e é abastecido diariamente com doações de alimentos que podem ser retirados gratuitamente por qualquer pessoa que precise. Ela fica aberta 24 h e um grupo de sete ‘guardiões’ se reveza para fazer a limpeza, checar a validade dos alimentos e orientar sobre o uso.  Hoje há um fluxo diário de 30 a 50 retiradas por dia. A geladeira solidária está nstalada no estacionamento da farmácia Tamavy, na Rua Padre Manoel Bernardes nº 1017, Parque Taquaral.


Dona Sônia: pudim de chocolates embalados individualmente

Moradores do entorno aderiram

Sônia Cruz chegou com uma bandeja com vários potinhos abastecidos com pudim de chocolate, todos etiquetados com a data de produção e colherinhas plásticas. Colocou dentro da geladeira e já ia saindo quando foi abordada pela reportagem e explicou: “ fiz um pudim grande em casa, todos comeram, ficaram satisfeitos e o que sobrou foi pra geladeira, e se deixasse lá ia acabar sendo descartado. Então resolvi trazer. Outro dia fiz isso com uns quibes, que sobraram após alimentar a família, vieram pra cá e acabaram rapidinho! Se todos trouxerem o que sobra, vai ter pra todo mundo!”

Como ela, vários outros moradores e restaurantes do entorno estão abastecendo a geladeira com marmitas caseiras, litros de leite, bolachas, sanduiches, frutas e tem também quem deixe mantimentos, cestas básicas. Gisele Vidal, que participa do movimento, diz que há muita gente desempregada e com filhos que leva os mantimentos para preparar em casa ou retira as caixas de leite deixadas lá. Os doadores não precisam se identificar, basta colocar os produtos na geladeira.


Gisele Vidal: uma dos 'anjos da geladeira'

Conscientização em mão dupla

A proposta é estimular a solidariedade e evitar o desperdício de alimentos. “Ao invés de deixar o alimento se perder na geladeira, traz pra cá que vai ser útil para alguém, desde que esteja na validade”, lembra Gisele. Mas existem regras, orientadas pela Vigilância Sanitária: nenhuma carne ou peixe crus. Comida caseira precisa ser embalada em marmitex ou potes plásticos e etiquetada com a data em que foi produzida. Não são permitidos recipientes de vidro e nem bebidas alcoólicas. Sucos e leite devem estar em embalagens lacradas.


O cuidado na embalagem incluindo data de valildade dos produtos é muito importante
para garantir a segurança de quem vai consumir o alimento disponível

O chaveiro Alberto Libânio, que trabalha ao lado, observa o movimento de quem entrega e de quem retira os alimentos. “Os pratos feitos, sanduiches e outros alimentos prontos para o consumo atendem melhor aos moradores de rua ou outras pessoas que chegam com fome. Esses chegam tímidos e perguntam se podem pegar, como funciona. Mas sempre tem os oportunistas, gente que nem precisaria pegar o alimento alí, mas acha que deve aproveitar porque é de graça. Tudo bem, ele pode, ninguém vai questionar ou barrar, mas gostaríamos de priorizar quem realmente precisa”.  

Movimento internacional

A prática, que já se consolidou nos países europeus como uma forma de evitar desperdício de alimentos, chegou ao Brasil e se espalhou por várias regiões nos últimos três anos. Hoje a iniciativa da geladeira comunitária (ou solidária) já funciona em cidades como Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Salvador (BA), Ponta Grossa (PR), Palmas (TO) e em várias cidades do interior de São Paulo, como Valinhos, Santa Bárbara D’Oeste, Rio Claro, Taubaté, Araraquara, Assis, entre outras.